Durante o Setembro Amarelo, muitas empresas publicam mensagens sobre acolhimento, empatia e valorização da vida. Mas, quando o mês termina, continuam convivendo com jornadas excessivas, pressão desorganizada, conflitos ignorados e equipes trabalhando no limite.
Com a nova NR-1 e a saúde mental nas empresas ocupando um espaço cada vez maior na gestão dos negócios, o assunto não pode se limitar a uma campanha anual. As organizações precisam identificar fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, adotar medidas preventivas e acompanhar os resultados.
Nesse processo, o contador não substitui psicólogos, médicos ou profissionais de segurança do trabalho. Entretanto, sua proximidade com a folha de pagamento, os afastamentos, as jornadas e outros indicadores administrativos coloca a contabilidade em uma posição estratégica para orientar o empresário e ajudar a conectar as diferentes áreas envolvidas.
Setembro Amarelo precisa ir além das redes sociais
O Setembro Amarelo amplia a conversa sobre saúde mental, prevenção do suicídio, acolhimento e valorização da vida. É uma oportunidade importante para combater preconceitos e mostrar que pedir ajuda não representa fraqueza.
Dentro das empresas, porém, colocar uma fita amarela na recepção ou publicar uma mensagem nas redes sociais não resolve problemas estruturais.
Se o ambiente continua marcado por sobrecarga, assédio, metas inalcançáveis, conflitos permanentes e ausência de apoio, existe uma distância enorme entre o discurso publicado e a realidade vivida pelos trabalhadores.
A prevenção precisa fazer parte da rotina da organização durante o ano inteiro, envolvendo liderança, gestão de pessoas, segurança do trabalho e acompanhamento dos fatores que podem afetar a saúde dos colaboradores.
O que mudou na NR-1?
A nova redação do capítulo de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais da NR-1 entrou em vigor em 26 de maio de 2026.
A norma passou a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, conhecido como GRO.
De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, o GRO deve ser formalizado por meio do Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR, composto ao menos pelo inventário de riscos ocupacionais e pelo plano de ação.
Isso significa que as organizações precisam identificar os perigos existentes, avaliar os riscos, definir medidas de prevenção e acompanhar os controles adotados.
A mudança não determina que o empregador investigue a vida particular ou a personalidade dos funcionários. O foco está nos riscos originados pela concepção, organização e gestão do trabalho.
O que são fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho?
São situações presentes na organização do trabalho que podem contribuir para o surgimento ou agravamento de problemas físicos, psicológicos e sociais.
Entre os exemplos apresentados nas orientações do Ministério do Trabalho estão:
- sobrecarga de trabalho;
- excesso de demandas;
- pressão desproporcional;
- assédio moral, sexual ou de outra natureza;
- falta de apoio por parte da liderança;
- conflitos constantes;
- ausência de clareza nas funções;
- baixa autonomia para realizar as tarefas;
- comunicação inadequada;
- isolamento no trabalho;
- jornadas e ritmos incompatíveis com os recursos disponíveis.
O Guia de Fatores de Riscos Psicossociais do MTE reforça que a análise deve considerar aquilo que está relacionado ao trabalho, e não aspectos particulares da vida do trabalhador.
Onde entra o contador nessa história?
O contador acompanha informações que ajudam a mostrar como a empresa está funcionando na prática. Folha de pagamento, horas extras, afastamentos, rotatividade, admissões e rescisões contam parte da história do negócio.
Nenhum desses números, analisado isoladamente, comprova um problema de saúde mental ou a existência de um risco psicossocial. Entretanto, quando determinados padrões se repetem, eles podem indicar que alguma coisa merece atenção.
Uma empresa com horas extras permanentes, alta rotatividade e afastamentos recorrentes pode estar enfrentando problemas de organização, dimensionamento da equipe, liderança ou distribuição das tarefas.
É nesse ponto que o contador atua como parceiro estratégico: não para realizar um diagnóstico clínico, mas para transformar dados administrativos em perguntas importantes para a gestão.
Quais indicadores podem acender uma luz amarela?
A contabilidade e o departamento pessoal podem ajudar a empresa a acompanhar indicadores como:
- crescimento recorrente das horas extras;
- afastamentos e ausências frequentes;
- aumento da rotatividade;
- rescisões concentradas em determinados setores;
- férias constantemente adiadas;
- equipes reduzidas diante de uma demanda crescente;
- custos trabalhistas inesperados;
- mudanças frequentes na folha de pagamento;
- reclamações e conflitos recorrentes;
- dificuldade para manter profissionais em determinadas funções.
O conjunto desses dados pode acender uma luz amarela — com o perdão do trocadilho praticamente obrigatório.
Esses indicadores não devem ser usados para expor ou rotular funcionários. A análise precisa preservar a confidencialidade e observar tendências coletivas, buscando compreender problemas existentes na organização do trabalho.
Qual é o papel do contador diante da NR-1?
O contador pode contribuir em diferentes etapas da organização empresarial.
Alertar sobre mudanças e obrigações
A legislação trabalhista passa por alterações frequentes. Uma contabilidade próxima ajuda o empresário a conhecer mudanças relevantes e entender quando será necessário buscar apoio técnico especializado.
Organizar informações trabalhistas
Registros de jornada, folha de pagamento, férias, afastamentos, admissões e desligamentos ajudam a formar uma visão mais clara da rotina da empresa.
A gestão de pessoal mantém essas informações organizadas e permite que o empresário acompanhe indicadores importantes para suas decisões.
Ajudar a identificar padrões
O contador pode chamar a atenção para aumentos de custos, excesso de horas extras, crescimento da rotatividade e outros movimentos que merecem ser analisados pela administração.
Trata-se de observar os números e ajudar o empresário a formular as perguntas corretas, sem emitir diagnósticos sobre a saúde dos trabalhadores.
Integrar as áreas envolvidas
A gestão dos riscos psicossociais não deve ficar isolada em um único departamento. Dependendo da estrutura da empresa, o processo pode envolver direção, RH, departamento pessoal, medicina ocupacional, segurança do trabalho, jurídico e lideranças.
A contabilidade pode colaborar com as informações trabalhistas e administrativas necessárias para essa integração.
Apoiar o planejamento financeiro
Medidas preventivas podem exigir treinamento de lideranças, revisão de processos, contratação de profissionais, adequação das equipes e investimentos em segurança e saúde no trabalho.
O contador pode ajudar a empresa a avaliar os impactos financeiros e incluir essas medidas no planejamento.
O que não é responsabilidade do contador?
Reconhecer os limites da atuação contábil também é fundamental.
O contador não deve:
- diagnosticar transtornos psicológicos ou psiquiátricos;
- avaliar individualmente a saúde mental dos funcionários;
- substituir psicólogos, médicos ou profissionais de SST;
- elaborar sozinho avaliações técnicas de riscos psicossociais;
- investigar aspectos particulares da vida dos colaboradores;
- utilizar informações médicas ou pessoais de maneira inadequada;
- prometer que relatórios contábeis, sozinhos, representam adequação à NR-1.
A atuação da contabilidade é administrativa, trabalhista e consultiva. A identificação técnica, a avaliação dos riscos e a definição das medidas de prevenção precisam contar com profissionais qualificados conforme as necessidades da empresa.
A empresa precisa aplicar um teste psicológico nos funcionários?
A NR-1 não determina que a empresa faça diagnóstico psicológico coletivo nem que investigue a personalidade dos trabalhadores.
O objetivo é avaliar as condições de trabalho: como as tarefas são distribuídas, quais são as exigências, como funcionam a comunicação e a liderança e quais situações podem gerar riscos.
A participação dos trabalhadores é importante, mas precisa acontecer de maneira planejada, ética e compatível com o processo de gerenciamento de riscos.
Como a empresa pode começar?
O primeiro passo é abandonar a ideia de que saúde mental será resolvida com uma palestra anual e uma publicação no Instagram.
A organização pode iniciar o processo com algumas ações:
- Conhecer a redação atual da NR-1 e as orientações do MTE;
- Buscar apoio de profissionais de segurança e saúde no trabalho;
- Revisar o GRO, o PGR e a Avaliação Ergonômica Preliminar;
- Identificar fatores de risco relacionados à organização do trabalho;
- Ouvir os trabalhadores de maneira responsável e confidencial;
- Analisar indicadores administrativos e trabalhistas;
- Definir um plano de ação com responsáveis e prazos;
- Capacitar gestores e lideranças;
- Registrar as medidas adotadas;
- Acompanhar os resultados e revisar continuamente o processo.
Não existe uma solução única que sirva para todas as empresas. O processo precisa considerar o porte, a atividade, a estrutura, os setores e os riscos encontrados em cada organização.
O papel da contabilidade nas empresas de Jundiaí
Empresas de Jundiaí e região precisam incluir os riscos psicossociais em sua gestão de saúde e segurança do trabalho e compreender os impactos administrativos, trabalhistas e financeiros das medidas necessárias.
Uma contabilidade consultiva ajuda a manter as informações organizadas, acompanha alterações legais e oferece ao empresário uma visão mais completa dos indicadores do negócio.
A Meta Plano Contábil atua em Jundiaí com serviços contábeis, trabalhistas, fiscais e de gestão de pessoal, mantendo um relacionamento próximo com empresas e empreendedores da região.
Nosso papel é ajudar a organização a compreender os impactos, organizar informações e integrar as rotinas contábeis e trabalhistas aos profissionais responsáveis pelas demais etapas.
Perguntas frequentes sobre NR-1, contabilidade e saúde mental
A NR-1 obriga todas as empresas a avaliar riscos psicossociais?
As empresas devem gerenciar os riscos ocupacionais aplicáveis às suas atividades, incluindo expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. A forma de avaliação e as medidas necessárias dependem da realidade de cada organização.
O contador pode fazer a avaliação de riscos psicossociais?
A avaliação técnica deve ser conduzida por profissionais qualificados conforme as necessidades do processo. O contador pode colaborar com informações trabalhistas, indicadores administrativos e orientações relacionadas à gestão de pessoal.
O PGR precisa ser atualizado?
O PGR deve refletir os riscos identificados na organização e conter o inventário de riscos e o plano de ação. A necessidade de revisão deve ser avaliada pelos responsáveis técnicos à luz da redação vigente da NR-1.
Horas extras comprovam a existência de risco psicossocial?
Não. Horas extras isoladamente não comprovam um risco psicossocial. Entretanto, quando excessivas ou recorrentes, podem indicar uma situação que precisa ser analisada em conjunto com outros fatores.
A empresa precisa conhecer o diagnóstico médico dos funcionários?
Não é esse o objetivo da NR-1. A organização deve avaliar os fatores relacionados ao trabalho e preservar a privacidade e a confidencialidade das informações pessoais e médicas.
Como a contabilidade pode ajudar?
A contabilidade pode alertar sobre mudanças legais, organizar informações trabalhistas, acompanhar indicadores, apoiar o planejamento financeiro e facilitar a integração entre a gestão e os profissionais de saúde e segurança do trabalho.
Saúde mental exige cuidado o ano inteiro
O Setembro Amarelo é um convite para falar sobre acolhimento, prevenção e valorização da vida. Dentro das empresas, essa conversa precisa continuar durante todos os meses.
Cuidar dos fatores de risco psicossociais não é apenas cumprir uma exigência. É reconhecer que a forma como o trabalho é organizado afeta pessoas, resultados e a sustentabilidade do negócio.
Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento, procure ajuda. O Ministério da Saúde orienta buscar atendimento nos CAPS, Unidades Básicas de Saúde, UPA, pronto-socorro ou hospitais. O Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em situação de emergência, acione o SAMU pelo 192.
Para orientações sobre gestão de pessoal, rotinas trabalhistas e os impactos administrativos para sua empresa, entre em contato com a Meta Plano Contábil.
Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui avaliação jurídica, médica ou técnica em segurança e saúde no trabalho.